domingo, 24 de abril de 2011

Caio Fernando Abreu fala por mim

"Esse é só um dos sintomas, ficar muito tempo deitado. Tem outros, físicos. Uma fraqueza por dentro, assim feito dor nos ossos, principalmente nas pernas, na altura dos joelhos. Outro sintoma é uma coisa que chamo de pálpebras ardentes: fecho os olhos e é como se houvesse duas brasas no lugar das pálpebras. Há também essa dor que sobe do olho esquerdo pela fronte, pega um pedaço da testa, em cima da sobrancelha, depois se estende pela cabeça toda e vai se desfazendo aos poucos enquanto caminha em direção ao pescoço. E um nojo constante na boca do estômago, isso eu também tenho. Não tomo nada: nenhum remédio. Não adianta, sei que essa doença não é do corpo."

(Uma praiazinha de areia bem clara, ali, na beira da sanga, CFA)

terça-feira, 13 de julho de 2010

Cork, 13 de julho de 2010

Oi, tudo bem?
Faz um bom tempo que tô pra te mandar essa carta. Tempo é complicado de definir, né? Tão relativo, tudo isso. Tanto tempo que eu passei morando naquela cidade e parecia até que ele nem existia...
Tão pouco tempo aqui, comparado...depois que voltei, tempo voou. Falta pouco agora pra uma nova fase. se bem que 'nova fase' é também relativo.
É, demorei mesmo pra escrever. Muitas foram as decisões, das mais banais às mais angustiantes. Acabei resolvendo viver. Foi, sim, uma nova fase. Nunca imaginei o que estava à minha espera. Mas sabe quando o susto é bom e nos leva ao riso? Pois.
Mudei de casa, mudei de amigos (não que os antigos não permanecessem), mudei de roupas, mudei as reações e aprendi a respirar. Ah, a pensar também. Pensar antes de falar. Da minha maneira, as coisas parecem mais leves, mais fluidas. Tudo tem vindo de forma tão perfeita, que dá até pra estranhar. Acho que é quando a gente não cria muita expectativa. Mas vivi. E o tanto que isso se deu, acho que não dá pra escrever aqui... não tanto. Até porque não adianta... por mais que eu te fale, você só vai entender uma parte (mesmo dizendo que sabe bem o que é isso) porque, digo com orgulho, quem viveu fui eu. Quem sabe como tudo se estruturou, quem sentiu, fui eu. Eu sei, é egoísta.. mas é tão bom sentir a mudança. É como ver uma tulipa de Guinness... parece que tem algo vivo lá dentro, se transofrmando. Do marrom bem claro, vai se transformando... até que tudo fica de uma cor só, um negro impressionantemente lindo, e pronto pra ser apreciado. Acho que é bem isso que eu tô fazendo agora. Apreciando.
Bem, acho que vou guardar os detalhes pra quando a gente se encontrar. Não sei quando, porque por enquanto não tenho vontade de sair daqui. E não sei quando terei.
Manda algo teu. Não tenho notícias suas há tempos, também.
Um beijo e um abraço saudoso.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

me, mim, comigo

gostar
apaixonar
amar

três palavras com significados bem diferentes. em português.
traduzir sentimento na língua materna já é difícil, imagina traduzir o traduzido!

isso dá uma bronca linguística danada...

domingo, 6 de junho de 2010

Dos verdes na casa

E tinha um pé de hortelã na janela entre duas almofadas. A impressão era de que o tempero estava entre eles.... mas havia um vácuo, bem como a certeza de que não se veriam mais dentro de pouco tempo.
Vários sonhos. Planos de viajar, de viver viajando... Gastar a vida assim, vivendo. Ser mais um nas estatísticas. Aquelas de uma das poucas pessoas no mundo que conhecem o mundo. E que se conhecem no mundo.
Na vida de viajante não cabia nada que fosse permanente. Ela lembrou que no dia do aniversário, no ano passado, tirara uma foto de uma parte de um quadro que estava na galeria de arte. Estava escrito: "Nothing is permanent". E tomou pra si. Mas havia esquecido de dizê-lo. Viajaste... viajei.

Não sabia se deveria ficar de luto ou 'fuck it all', como dizem.

domingo, 9 de maio de 2010

piração.

A cada minuto a solidão corroía o cerne do ser. ter ficado praticamente sozinha todos os dias era como estar acompanhada do vazio... Os meninos no parque aborreciam porque choravam, miavam, reclamavam. E cada um queria ser só, não ter ninguém perto deles. Não sabiam o que diziam. Estar só tem algo de trágico. De sofrer por algo perdido, ou achado. De estar sem, tendo.
Ah, sei lá!
Cada um no seu ser-só deve entender o que não se explica.