quinta-feira, 31 de agosto de 2006

ao vento

sinto os fios da brisa nos meus cabelos. eles me contam da efemeridade das coisas, da dissipação do que fui e da pseudoconstrução de um presente-hoje. cada um dos fios me sussurra palavras soltas.
dor. solidão.
vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvida.

terça-feira, 29 de agosto de 2006

sinto muito

sinto muito, tenho de ir
a casa não está pronta
os móveis estão empoeirados

sinto, não dá pra ficar
indo, talvez, sinta-me bem
indo, talvez não

palavras fugiram
assim como o tempo
assim como elas mesmas
no momento do fim

causas e conseqüências não importam
elas não justificam
o sentido

mas sinto muito, tenho de ir.

(em 10 jul.2006)

alguém normal como eu (para ofélia)

sou normal, afirmo. sou? por que tanta pretensão em ser algo? é-se algo? existe alguma palavra no léxico definindo essa impossibilidade de completude? penso.

segunda-feira, 28 de agosto de 2006

integralização da vida

sentada no banco da universidade, leio clarice. aprendendo a viver. título no mínimo sugestivo. por uma semana fiquei a olhá-lo, sem coragem de lê-lo. só agora o tive. como pipoca doce, acho, para ver se adoço a vida. o homem passa. oferece-me biscoitos integrais. como minha pipoca e agradeço. penso como seria interessante ficar aqui, sentada, observando as pessoas. mas a vida não deixa. chronos não deixa. o homem dos biscoitos passa novamente. e me dá um sorriso cordial. retribuo.
a vida bem que poderia ser assim, como o homem dos biscoitos integrais.

segunda-feira, 21 de agosto de 2006

vontades...

desintegrar...
sumir do mundo...
acabar a vida...

sábado, 5 de agosto de 2006

jacto

Sua vida era medo.
Medo do silêncio, do frio da noite, das casas que pareciam grandes portais para um mundo novo, dos carros, das ruas, medo da sua história permanecer a mesma.
Bernardo desfazia das malas suas lembranças mais remotas e descobria que o medo era uma forma de se desdizer.
Em cada canto da casa havia ele. Havia os outros. Resquícios da memória que não o deixavam viver em paz. Mas viver em paz era algo que realmente ele não queria, pois o faria preso. Morrer em paz também.
E isso dava medo.
As tentativas de libertar sua alma do medo haviam sido inúmeras. Na rua, em casa, no alto de um prédio, num vidro de calmantes. Nada disso tinha surtido efeito. Bernardo tinha medo de se libertar. Pensava se eu quiser, eu faço. Ei! é isso realmente que eu quero? As frustrações eram muitas, e Bernardo sempre se arrependia de tentar o nada absoluto.
Ser humano é muito difícil. Bernardo ouvia o comentário no ônibus e via sua história como filme entrecortado por poucos momentos de alegria - felicidade não, era muito.
Sua vida era o que se convinha chamar vida boa. Conduta impecável, roupas sempre bem passadas, comida saudável, competência profissional irreparável.
Viver e ser. Duas palavras que não se encaixavam num mesmo contexto. Ou se vive, ou se é. É? Será assim a vida? Toda essa "grande maravilha", todas essas preocupações, todas as decepções... pra morrer e perceber que não se viveu o bastante? Pra cair em si no momento final e ver as inúmeras possibilidades que eu poderia ter sido e que só fui uma delas? Por que uma só apenas? Por que não uma a cada momento? Como as máscaras de todos os dias... podemos ser vários em um. Somos. E não somos. Estamos sendo apenas, conscientes de que nunca seremos.

Um som surdo ouviu-se.
Bernardo.
A vida.
A morte.