sexta-feira, 28 de março de 2008

amenizando com gelo [para Jöu]

- diz-me uma coisa?
- digo...
- o que é isso?
- gelo.
- para quê?
- para adormecer a pele.
- e para quê?
- para deixar de senti-la.
- e tu não queres sentir tua própria pele?
- não.
- por quê?
- porque tu estás nela.

[...]

terça-feira, 18 de março de 2008

soldadinho sem chumbo [para J.R.Durand]

alheio a tudo que sou,
o que serei
ou o que fui.

parto para sentir
do ventre materno o cuidado.

leite da planta que dá o sustento.
vida vivida do avesso.

preso ao verso do reverso,
revezo em mim as possibilidades.

livre num passado não passado,
paralelo de mim mesmo.

assim,
uni
versos.

universos
construídos à unificação dos inversos...
ou à sombra deles.

domingo, 9 de março de 2008

do autoabandono

nunca viu tanta poeira na vida. e pior, tinha que limpar tudo.
começou pensando como faria pra tirar as lonas preto-cinzas de cima dos móveis sem ter de empoeirar mais o chão.
tudo parecia um grande cenário de casa vazia, abandonada. olhava cada coisa e parecia que não mexia ali há pelo menos uns três anos... mas tinha de começar. alguma hora, mas tinha.
aí começou pela área de serviço. o lugar onde jogava tudo que não queria mais - ou que queria ajeitar, mas nunca tinha tempo - e tudo que parecia segundo plano, como roupa suja e material de limpeza.
à medida que ia tirando a grossa camada de poeira acumulada em duas semanas, pensava na sua própria área de serviço. pessoas com as quais tinha se relacionado, amigos e amigas perdidos no tempo, pessoas especiais em potencial, histórias mal resolvidas. preferiu terminar logo aquilo, encher o balde e partir pra sala. a cozinha, no meio do caminho, deixaria pra depois, afinal de contas, teria de passar o tempo todo por ela...
na sala, a mesa coberta indicava que não era usada há tempos, apesar do design moderno e arrojado. mesa pra seis pessoas, mas só três moravam e, muitas vezes, nem comiam lá. só no natal e ano novo... ou então quando vinha alguma visita - e olhe lá!
quantas pessoas a gente convida pra nossa mesa e não conseguem preencher nem uma cadeira, se perguntava... cada vez mais difícil limpar aquela casa...
muito cuidado ao tirar as lonas... pra não sujar mais ainda né?!
mas peraí! não teria de limpar tudo de todo jeito? que diferença faria um pouco de poeira a mais?? quanta preocupação besta!
balde com água e desinfetante para o piso. vassoura, pá, rodo e estopa. cada vez que jogava água no chão, eram algumas lágrimas que rolavam no rosto. ai, que calor! tô até pingando... dizia, só pra disfarçar a tristes lembranças de um ano atrás.

varanda. com rede de proteção, pra ninguém cair. que idéia! quem vai ser doido de cair daqui? sei lá! e aí depois ficou limpando cada azulejo e refletindo... é... quando se está só, não há preocupação com o outro caindo. melhor ficar só, então. né?
quanta solidão numa casa!
não teve coragem de limpar o quarto.
aquilo seria sua própria sentença de morte. o quarto é o lugar onde se guardam as coisas mais queridas, mais íntimas. arrumar aquele lugar era o mesmo que arrumar a vida.
aí não...
era demais pra um dia como aquele.